L U Z D A S E R R A

Aprenda a eliminar o stress diário!

Você se sente esgotado, levado por sua agenda, com medo do que vai acontecer se deixar algo? Não seja vítima da síndrome de sobrecarga interna ? o sentimento viciante de estresse de se ter muito a fazer e pouco tempo disponível.

É possível livrar-se da sobrecarga e encontrar paz, mesmo quando temos uma agenda cheia

Fui parar em uma aula de Yoga de um professor famoso em Los Angeles. A sala estava cheia de yoginis loiras e magras, que se moviam como nadadoras de nado sincronizado em uma série de vinyasa. Após 15 minutos, o professor chamou a classe para demonstrar detalhes de alinhamento. Metade das mulheres da turma foi checar, enquanto o resto ligou os celulares para verificar as mensagens.

Essas mulheres podiam ser médicas de plantão ou mães com crianças pequenas em casa. Mas suspeito que elas sejam vítimas, como tantas pessoas, da síndrome de sobrecarga interna ? o sentimento viciante de estresse de se ter muito a fazer e pouco tempo disponível. A sobrecarga interna, um complexo de pensamentos, crenças e respostas corporais gerados internamente, pode ser desencadeada por um dia movimentado ou por necessidades conflitantes. Mas, ao contrário da sobrecarga externa, que é o estado de termos muito a fazer, a interna não se dissipa quando as tarefas são feitas. A sobrecarga externa ? a pressão que vem de ter de lidar com o trabalho, filhos e as tarefas do dia a dia ? pode ser gerenciada. Isso pode ser feito até pelo caminho do Yoga. Mas a sobrecarga interna controla você.

Quando as pessoas dizem: ?Estou tão ocupado que não consigo praticar?, sempre pergunto qual sobrecarga as está atormentando: a externa ou a interna. Um indício de que você pode estar sofrendo da síndrome da sobrecarga interna é o seguinte: quando você não tem uma tarefa imediata para fazer, quando tem um momento que poderia ser dedicado a algumas respirações ou a se distrair, ainda se pega pensando em mil coisas, imaginando o que esqueceu? Isso é a sobrecarga interna.

O paradoxo da sobrecarga é parecido com o paradoxo do estresse. Por um lado, seres humanos são feitos para serem ocupados. Somos prontos para ação: quando se trata de mentes, músculos ou habilidades de vida, é usá-los ou perdê-los. Viver é agir, como Krishna lembra seu discípulo Arjuna no Bhagavad Gita. E há muitas bênçãos em usar as habilidades. Se tivesse escolha, a maioria das pessoas optaria por uma vida cheia, mesmo que custasse ter muito a fazer. A felicidade, tão elusiva quando a estamos perseguindo, tem uma maneira de fugir quando estamos absortos em algo ? mesmo que apenas lavando a louça.

Sendo pego
Mas há também o lado compulsivo da sobrecarga. Você se sente esgotado, levado por sua agenda, com medo do que vai acontecer se deixar algo. Você se mantém na adrenalina; fica impaciente com os filhos, se sente culpado; teme se encontrar com amigos, pois vai ter de parar e conversar. Ficar na correria pode deixá-lo tão focado em tarefas que você ignora outras necessidades como você mesmo. No estudo do seminário teológico Bom Samaritano de Princeton, quase todos os estudantes observados passaram por um homem que parecia estar tendo um enfarte. Quando entrevistados mais tarde, a maioria deles não parou, dizendo que estava com pressa de ir à aula.
Esse estudo ofereceu uma dica importante sobre sobrecarga interna. É baseada na atitude sobre o tempo. Quando o ritmo de trabalho é intensificado, como na sociedade moderna industrial e pós-industrial, o tempo é visto como uma finita, sempre minguante comodidade. Porque o tempo parece escasso, as pessoas tentam comprimir a máxima quantidade de produtividade por minuto. Elas tendem a gastar menos tempo em coisas como meditação, contemplação e canto ? que não podem ser feitos para aumentar o lucro no tempo investido. Mesmo os yogis, que supostamente olham para a profundidade interna da vida, frequentemente se veem vivendo pela suposição capitalista de que precisamos produzir um resultado quantificável.
Quantos de nós ficamos mais interessados em meditação quando lemos que a Universidade de Wisconsin fez estudos que mostraram que pessoas que meditam podem aumentar a atividade na parte do cérebro responsável pela ?felicidade?? Esperamos que a prática nos dê algo mensurável, uma alavancada na carreira ou, no mínimo, rejuvenesça para que possamos trabalhar mais. A prática espiritual se torna válida por sua utilidade na vida externa, mais do que como fonte de paz e bem-estar para que foi criada. Essa suposição ? que se vamos gastar tempo em algo, isso precisa produzir um lucro mensurável ? é a raiz da sobrecarga interna.
Uma maneira poderosa de trabalhar diante da sobrecarga interna é periodicamente fazer uma pausa por dois a três minutos durante o dia. Enquanto está na sua mesa ou lavando roupa, faça uma prática de Yoga como as descritas nestas páginas. A ideia é fazer por seu próprio fim, sem esperar resultados.

Sobrecarga e vício
Minha amiga Glenn é como uma das deusas hindus de oito braços: uma multiatarefada brilhante. Ela pode fazer cinco ou seis coisas simultaneamente: liderar uma reunião, marcar dentista para os filhos, conversar com um amigo pelo telefone. Por anos, ela disse que fazia tudo no ?fluxo? ? que tudo parece acontecer por conta própria enquanto você muda facilmente de uma atividade para outra. Em algum ponto, porém, ela percebeu que estava viciada no ?barato? da multitarefa. Vício em atividade é como qualquer outro vício: conforme progride, precisa cada vez mais para chegar ao fulgor original. Então, adiciona mais um item à agenda, e então outro. As pessoas pedem para se juntar a uma comissão e você não consegue resistir. Você ouve sobre uma conferência ou um projeto e pede para se envolver. Você vai a duas ou três festas por semana e inscreve o filho para atividades extracurriculares seis dias por semana. Muito em breve, estará enviando e-mails enquanto fala ao telefone, lendo enquanto come ou praticando asanas e ajudando seu filho com o dever de casa enquanto assiste aos telejornais ou alimenta o cachorro.
Em um nível fundamental, estar ocupado nutre a necessidade do ego de se sentir importante. Mas enquanto é normal obter uma autoestima saudável de estar engajado com o mundo, o vício à sobrecarga do ego tem como centro um terror pelo próprio vazio. O ego sente, ?se estou ocupado, significa que existo. Sou desejado?. Quando está ativo, você se sente parte do ritmo da vida. Nossa cultura reforça a suposição de que estar ocupado é igual a ser produtivo e importante.

Saindo do trilho
Alguns meses atrás, Glenn percebeu que estava exausta e precisava mudar sua vida. Ela conseguiu tirar uma semana de férias quando sua filha estava com o ex-marido, para contemplação. Nos primeiros dias, o telefone tocou constantemente. Então, parou. No começo, Glenn achou o silêncio assustador. Significava que ela havia deixado de existir no seu mundo de pessoas ocupadas? Ela percebeu que, longe do trabalho, se sentia sem sentido, como se a existência dela não tivesse valor quando não estava fazendo um trabalho importante, útil.
Nos dias seguintes, Glenn se rendeu ao estar presente ao que ela estava experenciando. Ela se deixou preencher pelo medo de ser deixada de fora ? e o medo mais profundo de não existência que parecia estar por trás. Enquanto experenciava, ela passou dos medos para uma paz real. ?Comecei a sentir a parte de mim que é mais profunda do que o medo de ficar sozinha, do que o medo de não ser suficiente, do que tristeza e tédio?, ela diz. No fim da semana, já de volta à sua ?toda programada? vida, Gleen enfrentou o problema de como se manter longe do velho hábito de preencher cada minuto. O primeiro passo era fazer menos. Isso não é sempre fácil, especialmente para aqueles com filhos jovens ou com um trabalho muito exigente. Mas Glenn descobriu que se ela recusasse ?extras? não essenciais, como liderar uma comissão ou dar uma palestra, teria mais tempo para focar nos essenciais. Também significava que ela poderia fazer uma ou duas rodadas de pranayamas entre compromissos e até meditar por alguns minutos antes do almoço.
Lidar com a sobrecarga externa quase sempre demanda soluções práticas ? delegar ou deixar certas atividades, talvez até observar um dia sabático semanal, um dia de descanso e contemplação interna. Mas a sobrecarga interna é o domínio do Yoga. Para focar na sobrecarga interna, você precisa de dois tipos de Yoga.
Primeiro, você precisa de práticas internas que levem ao seu centro. Mesmo se não estiver preparado para se comprometer com uma prática diária de meditação, pode parar várias vezes ao dia para centralizar em você com alguma forma de foco interno. Minipráticas criam um pequeno espaço de refúgio no seu dia. Com o tempo, o senso de vastidão que encontra nesses momentos vai expandir até que você possa acessá-lo quando desejar.
O segundo tipo de Yoga é mais exigente, porque pede que você cultive atitudes que permitam que aja com consciência yóguica em tudo que faz. Suas ações se tornam Yoga quando age com foco interior. Caso contrário, você poderá fazer coisas maravilhosas ao mundo ? arte, praticar a lei da pobreza e trabalhar pelo meio ambiente ?, mas ainda se sentirá esgotado.
Há uma antiga história Zen sobre dois monges que se encontram fora do templo. Um deles está varrendo os degraus do templo. O segundo monge ralha com o primeiro por estar varrendo em vez de meditar, dizendo: ?Você está muito ocupado?. O monge varredor responde. ?Você deveria saber que há alguém dentro de mim que não está ocupado?.
O ?alguém que não está ocupado? é o Ser puro, a presença imutável dentro de nós que sem esforço nos conecta com o coração do Universo e satura-nos com o sentimento do ?tudo bem?. O monge podia agir no tempo e espaço do estado de calma infinito, porque mesmo em ação, ele nunca perdia contato com o Ser puro. A sobrecarga interna vem do sentimento de não ter tempo suficiente. Quando você age com foco interior, isso tira você do laço do tempo, ancorando-o no local onde o tempo é sempre suficiente.

Entre passado e futuro
Você deve ter experimentado um momento em que o relacionamento com o tempo mudou. Talvez você estivesse absorto em uma tarefa. Talvez tenha atingido o estado ?certo? de um asana e encontrou-se em presença pura e sem esforço. Em um minuto, você está desejando que o relógio se mova mais rápido. No próximo minuto, o tempo desacelera, e você está no intervalo entre passado e futuro. Nesse intervalo, a presença eterna interminável aparece. Sem pressão do tempo, porque não há tempo. Quando entra nessa zona, você tem todo o tempo de que precisa para completar as tarefas.
Anos atrás, quando comecei a dar palestras, me descobri atrasada para um programa. Comecei a me apressar. Pude sentir a ansiedade pelo meu corpo. De repente, de algum campo interior cheio de graça, o pensamento surgiu: ?O que você acha que está fazendo??. Tentei afastá-lo e continuar correndo, mas ele apareceu de novo. Então, vi a ironia, a contradição. Estava indo fazer um discurso espiritual e minha pressa estava me tirando o contato com o espírito! Parei por um momento e desacelerei, respirando profundamente até que senti a ansiedade se esvaindo.
Quando voltei ao meu caminho, percebi que estava me sentindo diferente. A respiração ou a intenção de parar de correr: algo me tirou da zona de sobrecarga e colocou-me em uma quietude interna. Ainda focando na respiração, cheguei ao local cinco minutos atrasada, mas tão presente que fui capaz de entrar direto na conversa, sem problema, sem nervosismo. Aquele momento foi um ponto da virada para mim. Para um amigo cujo trabalho exigia horas no trânsito caótico, o ponto da virada foi manter a atenção no coração enquanto dirigia. Para ambos, a mudança veio com uma decisão de focar para dentro em um momento de estresse e permitir o intervalo, o lugar de quietude onde o tempo desacelera para mostrar sua face.
O alguém que não está ocupado vive no espaço entre cada respiração, entre cada pensamento. Entre o fim de uma ação e o começo da próxima, podemos mergulhar na fonte de cada ação: o ponto imóvel entre o giro dos mundos. Conhecido em sânscrito como o ponto central ou o intervalo, essa porta na vastidão surge em cada momento. Nós apenas não notamos. ?Seres humanos experimentam milhares de samadis passageiros todo dia?, diz um sábio no antigo texto Tripura Rahasya. ?Mas nós passamos por eles, correndo para o próximo momento.?
Meditação é o caminho para nos treinarmos para perceber (não é por acaso que quando Krishna passou a ensinar Arjuna a metodologia do Yoga da ação, começou com meditação). Quando meditamos, tentamos encontrar o ponto de imobilidade e permanecer nele. Quando aprendemos a preenchê-lo com os olhos fechados, podemos começar a reconhecer o intervalo quando aparece no meio da atividade.
Esse tipo de meditação ? meditação no voo ? é vista como sendo mais valiosa do que sentar em meditação. Mas você não pode meditar no movimento até que tenha alguma prática de meditação sentada. Uma prática regular de sentar para meditar treina-o para identificar o sentido da mente quieta, e então você tem uma chance melhor de encontrar a quietude no meio da atividade. Depois de anos afinando o alguém que não está ocupado, aprendi a entrar nesses momentos de quietude em vez de passar por cima deles. Quando paro para saborear a imobilidade, minhas ações subsequentes fluem desse lugar quieto e assumem o poder de não deixar a mente ordinária chegar perto.

Tranquilidade na ação
No Bhagavad Gita, Krishna define Yoga como ?habilidade na ação?. A princípio, pode parecer simplesmente ser bom no que você faz. Mas a verdadeira habilidade na ação é uma fluidez natural que surge quando você pode agir da perspectiva do alguém que não está ocupado. O alguém que não está ocupado está livre em todas as ações porque sabe que é intocado pela ação e seu resultado. Ele é a testemunha da ação. Quando a ação está acontecendo, ele pode sentar e deixar que ela tome conta. Ainda, paradoxalmente, ele pode absorver a si mesmo na tarefa, porque é livre de medo ou antecipação sobre o resultado.
Transformar as ações diárias em Yoga se torna uma dança entre fazer o melhor absoluto e render-se ao resultado. Você não pode se render ao resultado antes de fazer esforço, assim como não pode ganhar na loteria sem comprar um bilhete. Mas quando você faz o esforço, o Yoga está na intenção de se transformar no alguém que não está ocupado e sentir sua regularidade, seu desapego e sua liberdade. Você não vai vê-lo imediatamente, mas quando estiver comprometido em olhar da atividade para a imobilidade, o alguém que não está ocupado começa a achar você. Transformar-se no alguém que não está ocupado torna seu esforço sem esforço. Isso é quando a ação se torna Yoga e você se torna como a ação de uma deidade de oito braços, multiatarefado sem esforço, sem sensação nenhuma de estar ocupado.

Sally Kempton é professora de meditação e filosofia yóguica mundialmente reconhecida

Prática antipressa
Essa prática libera a compulsão que sempre surge quando você está com pressa. Experimente agora e pratique da próxima vez que se sentir apressado.
PARE. De pé ou sentado, fique imóvel por um minuto inteiro. Primeiro, diga a si mesmo: ?Eu tenho todo o tempo do mundo?. Traga para a mente um buda em meditação. Mantenha esse pensamento enquanto respira profunda e lentamente por cinco minutos. Mantenha a imagem na mente enquanto continua no seu caminho.

Prática: ache um ?eu sou? não verbal
PARE. Feche os olhos. Pergunte a si mesmo: ?Quando não estou ocupado, não produtivo, quem eu sou? Quando não estou pensando, nem me movimentando, nem comprometido emocionalmente, quem eu sou??. Em vez de procurar uma resposta verbal, afine-se com o espaço que se abre logo depois da pergunta.

Prática: ache um ponto de imobilidade
AGORA. Comece a balançar lentamente de um lado para o outro, inspirando de um lado, expirando pelo outro. No fim de cada movimento, note a pausa. Sintonize a pausa no lado direito, e depois do lado esquerdo. Foque na pausa por alguns segundos, deixe o movimento fluir dela. Pratique por 2 minutos.

Fonte: http://yogajournal.terra.com.br/show_yoga.php?id=1043

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