HomeLuz da SerraO “Novo Mundo” – a América inventada pelos europeus

O “Novo Mundo” – a América inventada pelos europeus

 “Não está em mapa algum;

Os lugares de verdade nunca estão”.

(Herman Melville, Moby Dick)

A partir da chegada dos primeiros europeus à América, inúmeras descrições sobre sua natureza, população e os eventos ocorridos nesta região surgiram na Europa. Entre tais relatos, as crônicas produzidas ao longo dos séculos XV e XVI se destacam, pois foram responsáveis pela formação de um repertório de visões sobre a América a partir de percepções, estereótipos, imagens e pressupostos epistemológicos compartilhados pela cultura européia.

Estas escritas penetraram na América por mandato real, visto que as ordenações sobre conquistas e descobrimentos prescreviam aos que fossem às costas americanas “levar um “Veedor” para atuar como escrivão responsável pela descrição da terra, de suas riquezas e dos usos e costumes de seus habitantes. Contudo, o registro histórico da realidade americana no século XVI apresentou exceções a esta regra geral. Dadas as circunstâncias do momento, indivíduos nem tão letrados assim – como capitães, soldados e mesmo alguns religiosos – acabaram por tomar a si tal tarefa.

Nesse momento, os discursos privilegiados são os relativos ao direito, à teologia, à administração e à história. Além da intenção oficial da Coroa de manter-se informada, as diferenças observadas entre o “Velho” e “Novo Mundo” criavam a necessidade de a América ser reconhecida, ou melhor, incorporada, para atenuar o seu conteúdo perturbador, desconhecido para a Europa, de forma a assegurar a esta o seu poder de nomeação, sua posição de dominação.

Desde a Baixa Idade Média, o relato do maravilhoso era importante na literatura européia e livros de viajantes eram bem divulgados. Graças ao mirífico trazido do Oriente, o europeu podia imaginar locais distantes, com imagens fantásticas e fascinantes.

Assim sendo, o europeu já criara o gosto pelo fantástico, pelo distante, o que possibilitava, então, a projeção de imagens sobre regiões ainda não conhecidas. A historiadora Laura de Mello e Souza em seu livro “O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial” atesta que, nesta época, (…) os olhos europeus procuravam a confirmação do que já sabiam, relutantes ante o reconhecimento do outro. Numa época em que ouvir valia mais do que ver, os olhos enxergavam primeiro o que se ouvira dizer; tudo quanto se vira era filtrado pelos relatos de viagens fantásticas, de terras longínquas, de homens monstruosos que habitavam os confins do mundo conhecido.”

É importante relembrarmos também, que a América foi descoberta e explorada num momento em que o homem europeu – principalmente o ibérico – ainda estava fortemente apegado a uma visão religiosa – católica – de mundo. A época das grandes navegações caracteriza-se por uma religiosidade exacerbada; o próprio descobridor da América, como se sabe, pensava seriamente na possibilidade de usar o ouro americano numa Cruzada pelo infiel.

Para Colombo, poder-se-ia dizer que foram três os motivos das navegações: o humano, o divino e o natural. Componentes do universo mental, nunca estiveram isolados uns dos outros, mantendo entre si uma relação constante e contraditória: na esfera divina, não existe Deus sem o Diabo; no mundo da natureza, não existe paraíso terrestre sem inferno; entre os homens, alternam-se virtude e pecado.

Quanto ao aspecto cultural dos homens com quem os ameríndios se defrontaram, vale lembrar que estes eram embebidos de valores aristocráticos e hierárquicos que compartilhavam a mística superioridade do sangue europeu; portadores da única e verdadeira fé, e por isso mesmo, intolerantes com qualquer outra manifestação que não fosse a católica; certos da legitimidade da guerra santa contra o infiel, cuja vitória lhes dava o direito de se apropriarem de suas terras e de suas riquezas; com a expectativa de fazer a América o meio mais rápido e eficaz para a sua ascensão social, obtenção de prestígio e enriquecimento rápido.

Dessa forma, para esses aventureiros, a América representava o lugar de “realização de sonhos”, que remontavam às escrituras e/ou lendas do período clássico e que circulavam no imaginário europeu nos inícios da época moderna. Era também, concretamente, especialmente no caso dos espanhóis, uma nova fronteira que após o fim da Guerra da Reconquista na Península, abria-se aos seus ideais de “ouro e honra”.

Condizentes com as “práticas e discursos” desta época, as crônicas sobre o “Novo Mundo”, assim como as cartas e relações do descobrimento e da conquista, respondiam às necessidades de um projeto de colonização, que foi marcado por duas ações dos europeus: ver e transformar. Neste sentido, as informações de tipo geográficas deveriam ser cuidadas, detalhadas e contínuas, de forma a alimentar a Corte com o máximo possível de dados e diagnósticos, expectativas e projetos quanto à viabilidade de exploração econômica da terra e a complexidade que envolvia o processo de colonização ultramarina.

As crônicas apresentavam-se geralmente estruturadas a partir de dois grandes eixos narrativos – o da natureza e o da cultura. Nesse propósito, iniciavam-se com uma história natural, com as descrições de caráter físico e geográfico, nos quais se falava da terra, de seu clima, hidrografia, relevo, recursos naturais, fauna e flora. As descrições da natureza encontravam fundamento na concepção desta como princípio da vida e do movimento, sendo, entre todas as coisas existentes, a mais antiga e venerável, visto que Deus, o seu Criador, a havia criado primeiro que o homem.

Dessa forma, o olhar europeu estruturou-se na observação e no relato das especificidades das terras longínquas, segundo o historiador Wilton Carlos Lima da Silva “(…) inventariando e inventando, tornando o distante, o exótico e o diferente algo passível de ser imaginado e decifrado em seu sentido e utilidade. (…) As respostas eram dadas a partir das comparações entre o Velho e o Novo Mundo, fundamentadas por um sistema de pensamento a partir de uma lógica binária que opõe natureza e cultura.”

A edenização da natureza, o encantamento frente às matas, animais e terras registradas nas crônicas, expressavam as potencialidades do Novo mundo. Com um olhar dirigido, o cronista selecionava informações, construía um cenário, exagerava nas cores, sob um viés que se dizia “civilidade”, de “salvadores de almas”.

E foi assim que, as tensões entre o racional e o maravilhoso, o pensamento laico e o religioso, o poder de Deus e do Diabo, o bem e o mal, marcaram as concepções diversas acerca do Novo Mundo. Portanto, desde os tempos iniciais da Conquista e através da utilização da escrita e de outros dispositivos de poder, os europeus observaram e construíram a realidade americana á semelhança de sua própria.

Agora, imagine o que era para um europeu se enfiar dentro de um naviozinho frágil, largado no meio de um oceano totalmente desconhecido. Viagens tantas vezes sem volta, furacões e histórias fantásticas de marinheiros a respeito de monstros que almoçavam a tripulação como se fossem deliciosas maçãs, perigos horrorosos que arrepiavam até os mais valentes… Apesar de todos os riscos, aqueles homens toparam a aventura. E fizeram o que nenhum outro europeu tinha conseguido: contornaram a África, alcançaram o Oriente e encontraram a América.

É obvio que o espírito aventureiro não é a única explicação para aquelas expedições. Existem várias outras. Mas é curioso notar que os europeus que desembarcaram na América não vieram em busca da “realidade América”, e sim, daquela que estava contida em cada um dos indivíduos, o que gerou as diferentes buscas realizadas pelos diversos grupos que penetraram o território.

Mas e hoje? Você já parou para pensar o que leva as pessoas a deixarem o seu país para morarem em outro? O quê exatamente buscam estas pessoas? Eu, particularmente, acredito que ainda seja o sonho de uma nova realidade… Mas e você? O quê pensa à respeito?

 

Márcia Ledur é professora há mais de 17 anos e facilitadora da “Encontros Culturais”. Conheça mais sobre o seu trabalho em:

www.encontrosculturaisml.blogspot.com

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