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Colocando a Mão no Forno
Por: Domício Martins Brasiliense
Tenho em minha memória um menino com pouco menos de dois anos de idade que adorava estar na cozinha. Sua preferência era brincar com as panelas que ficavam guardadas em baixo da pia. Então, na hora de cozinhar ou lavar louças, lá estava ele, tirando todas as panelas e com elas montando e imaginando coisas. Era divertido presenciar Os movimentos que iam criando coisas e montando um mundo imaginário. Pensava em como um ser que sabia tão pouco sobre a vida poderia ficar tão absorto, num estado quase meditativo em meio a tanto barulho que as panelas faziam.
Muitas vezes me peguei ansioso com todo aquele barulho das panelas. Eu, no meu mundo de responsabilidades e preocupações e ele num mundo de sons e descobertas. Estávamos juntos, mas em mundos com diferentes rotações, então segurava minha ansiedade quando olhava para aquele rosto terno e puro, que tanto amava.
O menino foi crescendo e com ele o instinto de descobertas e experiências. Foi quando num certo dia começou a insistir em colocar a mão no forno. Várias vezes, durante vários dias, foi a avisado do perigo e induzido a se distrair com outras coisas na Grande cozinha, mais precisamente em relação a uma caixa enorme com diferentes brinquedos. Mas, que pretensão a nossa de pensarmos em desviá-lo de sua rota. De uma forma ou outra, quando víamos, lá estava ele na frente do forno. Noutro dia avisamos novamente do perigo, mas dissemos que não iríamos impedir. Dito e feito: colocou a mão no forno e começou a chorar muito.
Se fossemos passar toda a cena em câmera lenta, veríamos: um menino teimando e os responsáveis avisando. Depois o menino colocando a mão no forno, constatando a dor, olhando rapidamente para os responsáveis (como quem diz: agora entendi!), voltando-se para is, segurando a mãozinha e chorando com postura encolhida e, após constatar que necessitava de ajuda, olha e acolhe atenção e auxílio.
Indo para nossa questão: Não é disso que se trata a vida? De tentativas, desafios e experiências? Fazendo uma analogia: não deveríamos "pegar" nossas "panelas", fazer sons, construções e encaixes na tentativa de compreender o mundo e nossas vidas? E, muitas vezes não precisamos colocar a mão no "forno"? Olhemos para traz... Não somos hoje o resultado de nossas experiências? Claro! Por conseguinte, já temos o forno justificado, por mais que não gostemos e que o registro tenha sido de uma experiência negativa. Aprofundando um pouco mais, quando nos sentimos entediados com nossas vidas não será falta de panelas e um forninho para experienciar?
Parece que nos acomodamos em brincar com as mesmas coisas, da mesma forma. Então, por que não nos imbuímos do espírito do explorador e buscamos novos conhecimentos? O que nos impede de realizar novas construções a partir de novos sons, novas visões e outras experiências? Pensemos neste instante: o que eu posso fazer hoje para o meu dia ser melhor? No que eu posso mudar? É aceitando um convite, uma proposta, dizer não para alguém ou alguma coisa, me desafiando a mudanças, acreditando mais em mim, etc. Então, crie novas receitas para as panelas e o forno. Comece a cozinhar sua auto-estima para que ela atinja o ponto ideal e asse no forno idéias que crescerão até estarem prontas para sair para o mundo. Viva com suas panelas! Conviva com seus toques no forno! Atire-se para a vida mas, principalmente, para is mesmo!
Hoje em dia, o menino das panelas já é adulto e continua a viver a vida. Não brinca mais com panelas, ao contrário, foge delas e tem horror de lavar louças. De forno pouco entende, mas se vira bem. Se perguntado, não lembra mais daquela fatídica experiência com o forno, ao contrário de mim que nunca esqueci e muitas vezes me culpei. Hoje ele brinca com essa história e eu continuo a me sentir estranhamente bem no papel de educador. Hoje ele continua a ter experiências, luta por seus sonhos e tenta conhecer mais a si, os outros e a vida. Eu? Também continuo a viver a vida, mas, se pudesse, continuaria a avisar o menino-homem que ele pode se machucar em outros fornos e gostaria de estar presente para tratar dos curativos. Então, a partir dele descobri em mim minhas próprias panelas e que um forno pode assar um lindo amor.
Por: Domício Martins Brasiliense
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