- Postado por: Luz da Serra
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Hábitos e conceitos "corporificados"
Por: Cristina Helena Sarraf
"Suas crenças se tornam seus pensamentos
Seus pensamentos se tornam suas palavras
Suas palavras se tornam suas ações
Suas ações se tornam seus hábitos
Seus hábitos se tornam seus valores
Seus valores se tornam o seu destino"
Uma das grandes frustrações que nos acometem, é sabermos da necessidade de mudar algo, termos encontrado a solução e na hora em que se apresenta a oportunidade, ficarmos atrapalhados e agimos à moda antiga. No minuto seguinte, caímos em nós e nos sentimos tão mal, sem saber o que fazer.
Parece que não aprendemos nada, que somos joguetes de algo estranho e sobressai a desagradável sensação de incapacidade e de insegurança.
Por que isso acontece, se o nosso comportamento foi examinado e foram analisadas as conseqüências dos atos advindos daquela primeira forma, que mostrou-se promotora de sofrimento, dando-nos a certeza da urgente necessidade de renovação?
A maneira antiga, que voltamos a usar sem querer, não nos traz a necessária paz e nem o bem estar pessoal e relacional. Isso já está mais do que provado. Por que então, essa dificuldade em largá-la e ficar com a nova?
Às vezes até parece que as decisões não são nossas...
A resposta a esse questionamento justo e correto, está no fato de sermos condicionáveis. Ou seja, nossos comportamentos repetitivos vão sendo aprendidos e memorizados por todos os nossos recursos de aprendizado, e acabam tornando-se mecânicos, automatizados. É assim que sabemos a tabuada, dirigimos automóveis, digitamos, tocamos um instrumento sem partitura, e tantas outras coisas, que se não fosse essa capacidade de condicionamento, seriam impossíveis.
Já observamos a velocidade que um digitador profissional imprime em seu trabalho, ou as reações inesperadamente salvadoras de um motorista experiente, ou o longo concerto que um pianista executa de olhos fechados? Várias memórias entram em jogo nesses exemplos: a visual, a motora, a espacial, a auditiva, somando-se e adquirindo uma espécie de autonomia, que permite à pessoa pensar e agir, enquanto mãos e pés executam o que foi mecanizado, pelas muitas repetições, sempre do mesmo jeito.
Então, ser condicionável não é ruim. Claro que não! A questão está em que abusamos dessa possibilidade e nos acomodamos com ela, deixando que nos domine; e depois não gostamos dos resultados.
Quando e como abusamos? Quando não pomos atenção nos pensamentos, idéias, modos de ser e condutas que vamos tendo pela vida afora, e não verificamos se estão sendo conscientemente escolhidos ou só repetidos. E quando alijamos da observação, o que sentimos diante das situações, desprezando a sabedoria da sensibilidade, pela ilusão de estarmos sendo racionais.
Se outras filosofias não puderem dar boas explicações sobre como isso acontece, o Espiritismo as dá, quando nos ensina que somos Espíritos individualizados desde a origem, e que nos desenvolvemos pelas experiências adquiridas em múltiplas vidas, desabrochando, assim, potenciais que nos são próprios. Dotados de arbítrio, escolhemos o que nos parece o melhor, em cada momento, e arcamos com as conseqüências naturais dessas escolhas, que vão nos ensinando o que vale e o que não vale a pena, para nos aproximarmos do equilíbrio íntimo, sinônimo de felicidade, que é o nosso objetivo de existir.
Nessa trajetória, os ajustes de rota são necessários, na medida em que percebemos que não estamos nos direcionando para onde queremos.
Os hábitos mentais, que são as nossas formas de ver e entender a vida, repetidos sem análise, inserem-se no uso acomodado do condicionamento. Isso fez com que ganhassem a condição de corporificados, que é uma forma de se dizer, mostrando que funcionam automaticamente, como se cada parte do nosso corpo estivesse impregnada deles e colaborasse para sua manutenção. Tanto que na hora em que coisas inesperadas acontecem, nem pensamos, nem examinamos a situação e já reagimos automaticamente.
Por estarem "corporificados" esses conceitos e maneiras de ser funcionam independentemente da razão. Usam o mecanismo condicionador, englobando a capacidade de racionalizar e repetir, dando-nos a impressão de que estamos usando bem nossas funções mentais, mas não estamos. Já sabemos então, porque não dominamos a escolha de uma nova conduta e nos arrastamos nas recaídas e na repetição de equívocos.
Muita gente, pela imaturidade, considera que outros são responsáveis pelo que lhes acontece e que sãos vítimas, deslocando para fora a causa que está apenas dentro de cada um.
Um exemplo mais genérico pode ilustrar bem essa situação. Sabemos que a reencarnação é um fato, mas não somamos esse conhecimento nas relações diárias, nem conosco e nem com as pessoas com as quais convivemos. Por que? Porque estamos, nós ocidentais, condicionados social e culturalmente, por séculos de dominação religiosa amedrontadora, que proibiu a existência da reencarnação, e impôs a noção de que a alma é inserida no corpo na hora do nascimento, sendo portanto zerada e cabendo aos pais e educadores preencherem-na das coisas que consideram boas. Em função disso, características personais diferenciadas são negadas e condenadas, e todos deveriam procurar ser iguais a um fictício modelo de boa conduta. É, inclusive, dito que Deus quer assim.
E se não bastasse esse autoritarismo, que chegou em muitas ocasiões ás vias de fato, matando e trucidando os teimosos que continuavam a aceitar a condenada idéia da reencarnação, o século vinte foi marcado pela psicologia behaviorista, cujo fundamento é o condicionamento humano. Pais e educadores foram induzidos a utilizarem-se dos recursos de adestramento, como se as crianças humanas fossem Espíritos na fase animal. O que significa que a bagagem pré-encarnatória foi negada, o auto-exame, a análise de si mesmo e a reciclagem de pensamentos foram desestimulados, privilegiando-se a mecanização. Quem não reagiu a isso, ficou mais no piloto automático do que em si mesmo.
Ambas, a dominação religiosa dogmática e essa psicologia materialista, estão mais inseridas em nossa sociedade e em nosso inconsciente do que podemos imaginar. Tanto assim que, ao nos relacionarmos com uma pessoa, mesmo sendo reencarnacionistas, levamos tudo em conta, menos esse fato.
Como mudar? Por exemplo: olhar para si e para todos, como reencarnantes e saber que há limites e dores, conquistas e habilidades que cada um trás, de vidas passadas, os quais repercutem fortemente na presente, sem que percebamos. O renascimento, por ser lei, trás consigo o sábio detalhe do nublamento da memória anterior, para que uma nova oportunidade seja real. Mas isso não significa que nossas características fiquem apagadas. Muito ao contrário, elas transparecem na personalidade atual, colorindo-a através de tendências e especificidades não aprendidas agora.
Para colocarmos essa lógica em funcionamento, podemos adotar o exercício de toda vez que nos olharmos no espelho, dizermos: você é um Espírito imortal e reencarnante! E toda vez que olharmos para uma pessoa, pensarmos a mesma coisa. Assim, vamos nos acostumando com essa idéia, que por hora está só na cabeça. Mas poderá, pelo exercitamento, ir sendo "digerida e assimilada", tornando-se "corporificada". Quando isso acontecer, não precisaremos mais pensar, porque automatizamos o conceito, e tornou-se natural considerar o elemento reencarnação nas nossas relações, tanto conosco mesmo, quanto com os outros. Certamente, seremos pessoas mais fraternais e justas.
Por esse exemplo, reconhecemos uma idéia boa não usada na prática e encontramos uma forma de corrigir isso. Outras idéias ou costumes poderão, após serem examinados, precisar de ajustes, renovação ou descarte. E cada um de nós tem condições de promover essa faxina mental em próprio benefício, se assim o quiser de verdade.
Paciência e carinho consigo mesmo; respeito ao seu tempo de mudança; vontade aplicada para exercitar a nova atitude; a inspiração dos amigos espirituais para que não se percam as oportunidades, e muita auto-compreensão quando isso acontecer; são dicas que se pode dar para quem esteja querendo modificar um hábito mental.
Por: Cristina Helena Sarraf
Fale com Cristina: cristinasarraf@yahoo.com
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